LGPD no WhatsApp do escritório de advocacia: checklist prático
Documentos, laudos, prints e áudios com a vida do cliente passam todos os dias pelo WhatsApp do escritório. Este checklist mostra o que a LGPD e o sigilo profissional pedem desse canal e o que dá para arrumar ainda esta semana.
O WhatsApp virou o arquivo informal de muitos escritórios: RG, laudo médico, contracheque, print de conversa e áudio de dez minutos contando a separação. Tudo isso é dado pessoal, boa parte é dado sensível, e tudo está protegido pelo sigilo profissional. A LGPD não proíbe usar o WhatsApp. Ela pede que o escritório saiba por que trata cada dado, proteja o canal e escolha bem quem mais tem acesso. Este checklist vai direto a esses pontos.
Precisa de consentimento para atender pelo WhatsApp?
Em regra, não. O consentimento é só uma das bases legais da LGPD. No atendimento jurídico, as mais comuns são outras:
- Execução de contrato ou de procedimentos preliminares a ele, a pedido do titular (art. 7º, V): o cliente procurou o escritório e contratou o serviço.
- Exercício regular de direitos em processo judicial, administrativo ou arbitral (art. 7º, VI).
- Para dados sensíveis, o exercício regular de direitos, inclusive em contrato e em processo (art. 11, II, d).
Sem consentimento não quer dizer sem transparência. O titular tem direito a informações claras sobre o tratamento e sobre quem trata os dados (art. 6º, VI) e pode pedir confirmação, acesso, correção e outras providências (art. 18). E, por cima de tudo isso, vale o sigilo profissional (Código de Ética e Disciplina, art. 35).
O que é dado sensível na conversa com o cliente
A LGPD chama de sensível o dado sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, saúde, vida sexual e dado genético ou biométrico (art. 5º, II). No escritório, isso aparece o tempo todo:
- Previdenciário: laudos, CID, atestados, exames.
- Família: vida sexual e relacionamentos, saúde dos filhos.
- Trabalhista: atestados, acidentes, filiação a sindicato.
Isso não impede o atendimento. Pede mais cuidado: pedir só o necessário (princípio da necessidade, art. 6º, III), tirar o documento do celular e guardá-lo no sistema do escritório.
Checklist 1: o aparelho e a conta do WhatsApp
- Número do escritório no WhatsApp Business, e não o celular pessoal de quem atende.
- Confirmação em duas etapas ligada. O PIN impede que alguém registre o número do escritório em outro celular.
- Bloqueio do aparelho e do app com senha ou biometria.
- Aparelhos conectados revisados toda semana. A Central de Ajuda do WhatsApp recomenda conferir com frequência o que está conectado e desconectar o que você não reconhece.
- Backup com criptografia de ponta a ponta ligado, se o escritório usa o backup do WhatsApp.
- Saída de alguém da equipe: no mesmo dia, desconecte os aparelhos que a pessoa usava e troque as senhas e o PIN que ela conhecia.
Essas medidas são a parte do celular de um dever que a LGPD impõe a todo agente de tratamento: adotar medidas de segurança, técnicas e administrativas, contra acessos não autorizados, perda e vazamento (art. 46).

Checklist 2: as conversas e os documentos
- Peça só o necessário. Uma lista de documentos por área, nas respostas rápidas, evita que o cliente mande tudo.
- Tire os documentos do celular. Salve no sistema ou na pasta do caso e apague do aparelho quando não precisar mais deles ali.
- Nada de caso em grupo com terceiros. Familiares, correspondentes e peritos: cada um na sua conversa, com o que precisa saber.
- Mensagens temporárias com critério. Reduzem a exposição, mas apagam o que talvez você precise guardar, inclusive como prova.
- Defina por quanto tempo guarda. A LGPD manda eliminar os dados quando a finalidade acaba, mas permite conservá-los, por exemplo, para cumprir obrigação legal (arts. 15 e 16). Escreva a regra do escritório e siga.
- Tenha quem responda aos pedidos do titular, como "quais dados vocês têm de mim?" ou "apaguem o meu cadastro" (art. 18).
Checklist 3: fornecedores que acessam as conversas
Chatbot, plataforma de atendimento, CRM, transcrição de áudio, assistente de IA: se a ferramenta recebe as mensagens, ela trata dados em nome do escritório. Pela LGPD, o operador trata os dados segundo as instruções do controlador, que verifica se elas são cumpridas (art. 39), e o controlador e o operador devem manter registro das operações de tratamento (art. 37). Antes de contratar, peça por escrito:
- quais dados a ferramenta recebe e para quê;
- onde processa e onde guarda (a transferência para outro país tem regras próprias, art. 33);
- por quanto tempo guarda e como apaga;
- se usa os dados para treinar IA, e se dá para desligar (Recomendação 001/2024 da OAB, item 2.2);
- com quem compartilha (item 2.3) e como avisa se houver incidente.
Uma planilha simples, com uma linha por ferramenta e essas colunas, já é um bom registro.
Exemplo: as respostas do Parrot
| Pergunta | Resposta do Parrot |
|---|---|
| O que recebe | Como qualquer aparelho conectado, a conexão recebe as mensagens das conversas. O Parrot processa só os áudios das conversas individuais, depois que você liga o serviço, e as mensagens em que você chama @parrot. |
| Onde processa | Em servidores e com um fornecedor de transcrição nos Estados Unidos, listados na política de privacidade. |
| Por quanto tempo guarda | Os áudios são baixados só para transcrever, em memória. As mensagens da conexão são apagadas em até 7 dias (até 14 com a cópia de segurança). |
| Treina IA com as conversas | Não. Também não vende dados nem faz publicidade com eles. |
| Como desligar | "@parrot desativar" numa conversa, "@parrot desativar tudo" em todas, ou desconectar o aparelho no WhatsApp. |
Os detalhes estão na política de privacidade. Se o escritório usa IA para transcrever o que o cliente manda, a Recomendação 001/2024 da OAB orienta formalizar isso por escrito com o cliente; há um modelo de cláusula no guia Chatbot e IA no escritório de advocacia.

Se algo der errado: incidente de segurança
Celular roubado com o WhatsApp aberto, aparelho desconhecido na lista de conectados, conversa encaminhada para o cliente errado. O roteiro:
- Contenha: desconecte os aparelhos, troque o PIN e as senhas e, se o celular sumiu, bloqueie a linha com a operadora.
- Avalie: quais dados, de quais clientes, com que risco.
- Comunique se houver risco ou dano relevante: a ANPD e o titular devem ser avisados (LGPD, art. 48), em até 3 dias úteis, segundo a ANPD (Resolução CD/ANPD nº 15/2024, arts. 6º e 9º).
- Registre o que aconteceu e o que foi feito, mesmo que a conclusão seja não comunicar.
As sanções da LGPD incluem multa de até 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões por infração (art. 52, II), sem contar a responsabilidade ética perante a OAB.
Por onde começar
- Hoje: confirmação em duas etapas e revisão dos aparelhos conectados.
- Esta semana: documentos fora do celular e a planilha de fornecedores.
- Este mês: regra de guarda por escrito, cláusula de uso de IA no contrato e o roteiro de incidente combinado com a equipe.
Para organizar o resto do atendimento no WhatsApp, do número à triagem, veja o guia WhatsApp para advogados.
Conteúdo informativo, conferido com a legislação em 25 de setembro de 2026. Não substitui a análise do caso concreto nem a orientação da sua seccional da OAB.
Perguntas frequentes
Escritório de advocacia precisa pedir consentimento para usar WhatsApp com cliente?
Em regra, não. As bases legais mais comuns são a execução do contrato (LGPD, art. 7º, V) e o exercício regular de direitos (art. 7º, VI, e art. 11, II, d, para dados sensíveis). O dever de transparência e o sigilo profissional continuam valendo.
Advogado pode receber documentos do cliente pelo WhatsApp?
Pode. O cuidado é pedir só o necessário, proteger o aparelho e levar os documentos para o sistema ou a pasta do caso, apagando do celular quando não forem mais necessários ali.
Usar transcrição de áudio com IA viola a LGPD?
Não por si só. A ferramenta trata dados em nome do escritório, então é preciso saber onde ela processa, por quanto tempo guarda e se usa os dados para treinar IA, e informar o cliente. A Recomendação 001/2024 da OAB orienta formalizar por escrito o uso de IA.
O que fazer se o celular do escritório for roubado?
Desconecte os aparelhos, troque senhas e PIN, bloqueie a linha com a operadora e avalie quais dados ficaram expostos. Se houver risco ou dano relevante aos clientes, comunique a ANPD e os titulares em até 3 dias úteis (Resolução CD/ANPD nº 15/2024).
Por quanto tempo o escritório pode guardar as conversas com clientes?
A LGPD não fixa um prazo único: os dados devem ser eliminados quando a finalidade acaba, e a conservação é permitida, por exemplo, para cumprir obrigação legal (arts. 15 e 16). Defina a regra do escritório por escrito.
A multa da LGPD vale para escritório de advocacia?
Vale. As sanções incluem multa de até 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões por infração (art. 52, II), além da responsabilidade ética perante a OAB.
Mensagens temporárias ajudam a cumprir a LGPD?
Reduzem a exposição no aparelho, mas apagam o que talvez você precise guardar, como o histórico do atendimento ou uma prova. Use com critério, conversa por conversa.
O Parrot guarda as conversas dos clientes do escritório?
Não como arquivo. Os áudios são processados em memória, as mensagens que a conexão recebe são apagadas em até 7 dias (até 14 com a cópia de segurança) e as conversas não são usadas para treinar IA. Os detalhes estão na política de privacidade.
Fontes
- Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018)
- ANPD: comunicação de incidente de segurança e o prazo da Resolução CD/ANPD nº 15/2024
- Código de Ética e Disciplina da OAB
- Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB: IA generativa na prática jurídica
- Central de Ajuda do WhatsApp: dispositivos conectados no app WhatsApp Business