Jurisprudência inventada pela IA: por que acontece, o que diz o CPC e como conferir antes de protocolar
O acórdão tem número, relator e ementa bem escrita, mas não existe. Veja por que a IA inventa jurisprudência, o que os tribunais já fizeram com quem protocolou citação falsa e um roteiro de cinco passos para conferir cada precedente antes de assinar.
Jurisprudência inventada pela IA virou assunto de tribunal, não só de manchete. O advogado pede ao ChatGPT "três precedentes do STJ sobre o tema", recebe número, relator, data e uma ementa bem escrita, cola na petição e protocola. Semanas depois, o julgador registra que aqueles acórdãos não existem. Veja por que isso acontece, o que os tribunais já decidiram e como conferir cada citação antes de assinar.
Por que a IA inventa jurisprudência?
ChatGPT, Gemini, Copilot e Claude são modelos de linguagem: programas treinados com muito texto para escrever a continuação mais provável de uma frase. Quando você pede um precedente, o modelo não abre a base do tribunal. Ele monta algo com cara de acórdão: número no formato certo, nome de ministro e ementa convincente. Esse erro tem nome: alucinação, que é quando a IA apresenta como fato algo que ela mesma criou.
A Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB registra o risco: o conteúdo gerado por IA generativa pode incluir informações erradas, imprecisas ou enviesadas. E a alucinação não se limita a julgados. A IA também inventa súmula, atribui a um precedente real uma tese que ele não fixou e transcreve artigo de lei com redação diferente da oficial.
Jurisprudência inventada pela IA: o que os tribunais já decidiram
Os casos abaixo foram conferidos nas páginas oficiais dos tribunais. Em nenhum deles a explicação "foi a IA" evitou a multa.
- TSE, tese de 2025. Ao julgar recursos das eleições municipais de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral fixou que usar ou citar, em peça processual, julgados inexistentes, criados por inteligência artificial generativa ou não, permite aplicar multa por litigância de má-fé (REspEl nº 060035943, julgado em 13/2/2025), e mandou comunicar a OAB e o Ministério Público Eleitoral.
- TSE, 2026. Em fevereiro, a Corte multou quem apresentou precedentes inexistentes e transcreveu o art. 600, § 4º, do Código de Processo Penal com redação diferente da oficial. Em agosto, num caso descrito na ementa como alucinação de IA generativa, afirmou que alegar equívoco, sem nada que o demonstre, não afasta a multa.
- TJSC, 2025. A 6ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça de Santa Catarina aplicou multa de 10% sobre o valor atualizado da causa num agravo com jurisprudência e doutrina inexistentes. O advogado alegou uso inadvertido do ChatGPT, e o caso foi comunicado à OAB de Santa Catarina.
- TRT-MG, 2025. A Nona Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região manteve multa de R$ 1.200 a um trabalhador cuja peça atribuiu a uma súmula do TST um texto que não correspondia à realidade, com indícios de uso de IA. Para o relator, usar IA não afasta a responsabilidade pelo que se apresenta em juízo.
O que diz o CPC sobre citar jurisprudência falsa?
Tudo começa no art. 77 do Código de Processo Civil: partes e procuradores devem expor os fatos em juízo conforme a verdade e não formular pretensão sabendo que ela não tem fundamento (incisos I e II). Os tribunais têm enquadrado a citação de acórdão inexistente como litigância de má-fé por alterar a verdade dos fatos (art. 80, II).
A consequência está no art. 81: multa superior a 1% e inferior a 10% do valor corrigido da causa, mais indenização à parte contrária, honorários e despesas. Se o valor da causa for irrisório ou inestimável, a multa pode chegar a 10 salários-mínimos (§ 2º). No processo do trabalho, a CLT tem regra equivalente nos arts. 793-B e 793-C.
Um detalhe pesa na relação com o cliente: a multa por litigância de má-fé recai sobre a parte. Pela tese do TSE, os danos causados pela atuação do advogado se apuram em ação própria ou pela OAB, conforme o art. 77, § 6º, do CPC e o art. 32, parágrafo único, do Estatuto da Advocacia. O mesmo Estatuto lista como infração disciplinar deturpar o teor de dispositivo de lei, de citação doutrinária ou de julgado para confundir o adversário ou iludir o juiz (art. 34, XIV). Em resumo, o cliente paga a multa e o advogado pode ter de responder na Ordem.
A OAB proíbe usar IA para pesquisar jurisprudência?
Não proíbe. A Recomendação nº 001/2024 pede especial atenção ao levantamento de doutrina e jurisprudência com IA generativa e lembra que o art. 77 do CPC exige veracidade mesmo quando a informação veio de recurso tecnológico (item 3.2). O item 3.7 é direto: revisar integralmente tudo o que a IA gerar antes de apresentar em processo e não confiar só nela para montar argumentos.
Com estagiário ou assistente na equipe, o item 3.6 pede que sócios e gestores supervisionem o uso de IA, com política clara e treinamento. O guia o que a OAB permite com chatbot e IA traz um modelo de cláusula de uso de IA para o contrato de honorários.
Como conferir jurisprudência em 5 passos
- Liste cada citação. Tribunal, classe, número, relator, data e o trecho entre aspas. Citação sem número não entra na peça.
- Procure pelo número na base oficial do tribunal que julgou. Não confie em site de terceiros nem em outra IA. Os endereços estão na tabela abaixo.
- Leia a ementa e o inteiro teor. Precedente real também pode vir distorcido: confira se o julgado diz o que a peça afirma e se o trecho entre aspas está lá, palavra por palavra.
- Confira a lei no texto compilado. O artigo pode ter sido alterado ou revogado, e a IA pode ter reescrito a redação.
- Registre e decida. Guarde o link ou o print da consulta. O que não foi encontrado sai da peça, sem exceção.
| O que conferir | Onde conferir |
|---|---|
| Julgado do STF | Pesquisa de jurisprudência do STF |
| Julgado do STJ | Pesquisa de jurisprudência do STJ |
| Julgado ou súmula do TST | Pesquisa de jurisprudência do TST |
| Julgado de tribunal de justiça, TRF ou TRT | Pesquisa de jurisprudência no site do próprio tribunal |
| Precedentes de vários tribunais num só lugar | Banco Nacional de Precedentes (BNP) do CNJ |
| Artigo de lei federal | Texto compilado no site do Planalto (planalto.gov.br) |
O Banco Nacional de Precedentes é uma ferramenta pública do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), alimentada pelos precedentes que os tribunais enviam. Ele ajuda a achar o tema; a citação sai do inteiro teor publicado pelo tribunal que julgou.
Como usar IA sem inventar precedente
A regra é simples: peça à IA o que ela faz bem e busque o precedente você mesmo.
- Peça estrutura, não citação. Roteiro da peça, ordem dos argumentos, contra-argumentos prováveis e revisão de texto. Escreva no pedido: "não cite julgados; marque [PRECEDENTE] onde couber".
- Pesquise na base oficial. Com o argumento pronto, procure o julgado nas bases da tabela.
- Abra toda fonte indicada. Se a ferramenta diz que pesquisou na internet, confira cada link no site do tribunal.
- Proteja o cliente. Não cole nome, CPF nem detalhes que o identifiquem. A Recomendação nº 001/2024 pede atenção especial a dados que tornem o cliente identificável (item 2.1).
Mais exemplos de pedido estão em ChatGPT para advogados, e o panorama completo, em inteligência artificial na advocacia.
Onde o Parrot entra (e onde não entra)
O Parrot é um assistente de IA que funciona dentro do WhatsApp do escritório: transcreve e resume os áudios dos clientes e responde como assistente, sem trocar de número. Ele não pesquisa jurisprudência e não deve ser usado para isso.
O resumo que ele entrega sai do próprio áudio, e não de uma pesquisa. Mesmo assim, é ponto de partida: datas, valores e nomes se conferem no original, porque a IA também erra ao resumir. Para decisões, o guia como ler uma sentença rápido mostra onde procurar cada coisa.
O Parrot custa R$ 29,90 por mês, pago por Pix, sem fidelidade, com teste grátis de 7 dias sem cartão. Veja a página Parrot para Advogados.
Conteúdo informativo, conferido em 30 de setembro de 2026. Não substitui a leitura das normas e das decisões citadas nem a orientação da sua seccional da OAB.
Perguntas frequentes
Por que o ChatGPT inventa jurisprudência?
Porque modelos de linguagem escrevem o texto mais provável, e não consultam a base do tribunal ao responder. O resultado pode ter número, relator e ementa com cara de verdadeiros e não existir. Esse erro se chama alucinação.
Advogado pode ser multado por citar jurisprudência falsa?
A multa por litigância de má-fé do art. 81 do CPC, acima de 1% e abaixo de 10% do valor corrigido da causa, recai sobre a parte. A conduta do advogado é comunicada à OAB, e o Estatuto da Advocacia trata como infração deturpar o teor de julgado para iludir o juiz (art. 34, XIV).
Como saber se uma jurisprudência existe?
Procure pelo número na pesquisa de jurisprudência oficial do tribunal que julgou, como as do STF, do STJ e do TST, ou no Banco Nacional de Precedentes do CNJ. Depois leia o inteiro teor e confira se o trecho citado está lá.
Dizer que o erro foi da IA livra da multa?
Não tem livrado. O TSE decidiu em 2026 que alegar equívoco, sem nada que o demonstre, não afasta a multa, e o TRT-MG afirmou que usar IA não afasta a responsabilidade pelo que se apresenta em juízo.
A OAB proíbe advogado de usar IA na pesquisa?
Não. A Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB pede atenção especial à pesquisa de doutrina e jurisprudência com IA (item 3.2) e revisão integral de tudo o que a IA gerar antes de ir ao processo (item 3.7).
O Parrot pesquisa jurisprudência?
Não. O Parrot transcreve e resume os áudios que você recebe no WhatsApp e responde como assistente. Precedente se busca e se confere na base oficial do tribunal.
Fontes
- Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), arts. 77, 80 e 81
- Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB: IA generativa na prática jurídica
- TSE, Temas Selecionados: litigância de má-fé e julgados inexistentes
- TJSC: multa por jurisprudência falsa gerada por inteligência artificial (fevereiro de 2025)
- TRT-MG: multa após citação de súmula inexistente gerada por IA (outubro de 2025)
- Estatuto da Advocacia e da OAB (Lei nº 8.906/1994), arts. 32 e 34